Por Bombinhas Web, guia local · Publicado em
A areia que dá nome à cidade já foi matéria-prima industrial. Desde 1918, a areia das praias de Bombas e Bombinhas foi retirada em grandes quantidades por uma empresa de Blumenau, para a indústria de vidro. A extração só cessou por completo depois de muitos anos de protesto da comunidade, encabeçado pelo vereador Manoel José dos Santos.
Enquanto durou, ela mudou o formato das praias e criou um problema concreto para quem vivia do mar.
Por que essa areia interessava a uma fábrica de vidro?
Pela composição. A areia de Bombas e de Bombinhas é muito fina e formada por cristal e quartzo, e quartzo é justamente o insumo de que o vidro é feito.
Ou seja: o mesmo grão que rende a areia clara e o rangido sob o pé é o que atraiu a indústria. A característica que hoje é atrativo turístico foi, por décadas, um motivo para levar a praia embora de caminhão. As duas versões da origem do nome da cidade, as duas ligadas a som, estão em de onde vêm os nomes das praias.
O estrago não foi estético, foi de trabalho
É aqui que a história deixa de ser curiosidade.
Retirar areia em volume alterou a topografia das praias. No lugar do perfil regular, apareceram dunas e fossas artificiais, formadas pelo desequilíbrio do que foi tirado. E isso caiu direto sobre a comunidade de pescadores: as embarcações passaram a ter cada vez mais dificuldade para operar nessas faixas.
Numa cidade em que o barco era o instrumento de trabalho, mexer no desenho da praia era mexer na renda de quem morava ali. A pesca artesanal continua sendo parte da identidade da cidade, e o ciclo dela está em a pesca da tainha e o Saragaço.
Quem parou, e quanto tempo levou
A comunidade reagiu, e a reação teve nome. O vereador Manoel José dos Santos, junto com os moradores, protestou energicamente contra a extração.
O resultado não foi rápido: a atividade só cessou completamente depois de muitos anos. Mas cessou, e por pressão de quem morava ali, não por iniciativa de fora.
Vale registrar onde esse nome reaparece hoje. Há uma Avenida Vereador Manoel José dos Santos no Centro de Bombinhas, e é nela que fica a igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira do município. O homem que brigou pela praia dá nome à rua da igreja dos navegantes.
As orquídeas: a mesma história, outro produto
A areia não foi o único recurso levado embora, e o padrão se repete.
A extração de orquídeas começou em 1928 e teve auge entre as décadas de 30 e 60. Os primeiros exploradores também vinham de Blumenau, e as plantas eram levadas de lancha para Florianópolis, Blumenau e Joinville.
O detalhe que define a relação: a comunidade local nunca explorou as orquídeas comercialmente. Os moradores entravam na atividade como diaristas na extração e fretando os próprios barcos no transporte. O negócio foi sempre de gente de fora.
Postas lado a lado, as duas extrações têm o mesmo desenho:
| Areia | Orquídeas | |
|---|---|---|
| Começou em | 1918 | 1928 |
| Quem explorava | Empresa de Blumenau | Exploradores de Blumenau |
| Para onde ia | Indústria de vidro | Florianópolis, Blumenau e Joinville |
| Papel do morador | Nenhum, sofria o impacto na pesca | Diária na extração, frete no transporte |
O valor saía da península, e o que ficava era diária e frete.
O que sobrou disso hoje?
A areia continua lá, e continua sendo o produto. A diferença é que hoje ela é vendida como destino, não como insumo. As praias de Bombas e Bombinhas são as duas primeiras que o visitante conhece.
A cidade transformou preservação em ativo econômico. Bombinhas teve praias com certificação ambiental internacional na temporada 2025/2026, e o assunto está em praias com Bandeira Azul. É a inversão completa do arranjo de 1918.
E a lição de quem manda no recurso continua valendo. O turismo hoje responde por 19,74% do PIB municipal, e o retrato completo está em a economia de Bombinhas em números. A pergunta que a história da areia deixa é sempre a mesma: quem fica com o valor do que a península produz.
Perguntas rápidas
A areia de Bombinhas era usada para fazer vidro? Era. A partir de 1918, a areia das praias de Bombas e Bombinhas foi retirada em grandes quantidades por uma empresa de Blumenau para a indústria de vidro.
Por que essa areia servia para a indústria? Porque é muito fina e composta de cristal e quartzo, que é o insumo básico do vidro.
Que dano a extração causou? Alterou a topografia das praias, criando dunas e fossas artificiais. Isso dificultou cada vez mais o uso de embarcações pelos pescadores da região.
Como a extração acabou? Por protesto da comunidade, encabeçado pelo vereador Manoel José dos Santos. A atividade só cessou completamente depois de muitos anos de pressão.
As orquídeas também eram exploradas? Sim. A extração começou em 1928 e teve auge entre os anos 30 e 60, com exploradores de fora. As plantas iam de lancha para Florianópolis, Blumenau e Joinville. Os moradores participavam como diaristas e fretando barcos, nunca como donos do negócio.
Ainda se retira areia das praias de Bombinhas? Não. A atividade cessou, e hoje a cidade trabalha no sentido oposto, com praias que receberam certificação ambiental internacional na temporada 2025/2026.